46º Aniversário

Vamos comemorar, dia 29, o 46º aniversário da nossa chegada a Zemba (Zemba, Mucondo e Cambamba), onde iniciamos o cumprimento da nossa missão na guerra do Ultramar. Naquele ermo da mata dos Dembos, passamos 13 dolorosos meses. Nós cumprimos o nosso dever e deixamos lá 3 dos nossos camaradas, mortos em combate, e vários outros regressaram com deficiências e marcados para a vida.

É possível inventariar acontecimentos durante este tempo, mas vou enunciar, os que entretanto nos deixaram. Não vou referir posto ou patente, mas o nome e companhia.

- Em Angola: Manuel Lopes Azevedo, e Fernando Sousa Mota Magalhães da 3348; António Ribeiro da Fonseca, da 3346.

Entretanto tivemos conhecimento de alguns que morreram, após o regresso:

Américo da Silva Pinto, 3346; Aníbal José Rainho e António Abel Correia da Silva, 3348; António Carmo Cunha, 3347; António Domingos Pinto Rocha, 3348; António Fernandes Graça, CCS; António Henriique Cristo Carraça, 3346, António Joaquim Eustáquio, 3347; António Silva, 3346; Arnaldo Serra Gomes, e Carlos Alberto Pintada, Carlos Alberto Patrício, Carlos Vasconcelos, Cristino Pereira Valente, da CCS; Daniel Cunha Rodrigues Costa, 3346; Eduardo Reis Oliveira, 3347; Fernando Cândido Coelho, Fernando Venâncio Rocha, CCS; Francisco Miranda, Francisco Pisco, da 3348; Jaime Vieira Dias, 3347; João Lyra Fernandes, Joaquim Loureiro, Joaquim Pé-Leve, CCS, Jorge Paiva Leite, 3347; José Aires Lopes, 3346, José António Figueira Costa, 3348, José Horácio Moura, CCS; José Maria Marçal Pereira, 3346; José Oliveira Veiga, 3347;Manuel Augusto Magalhães, 3348; Manuel Câmara Rodrigues, 3347; Manuel Santos Coelho, CCS, Manuel Saraiva Pinheiro, 3347; Octávio Pegado, 3348; Paulo Eduardo Sécio, 3346; Pedro Azeredo, 3347, Rolandino Neves, CCS.

Destes 39 nomes, vários, nos acompanharam durante estes 30 anos de encontros.

Há, infelizmente, outros que desconhecemos.

3º ENCONTRO

Realizou-se, dia 20 de Maio o 30º Encontro do Batalhão de Caçadores nº 3840 e sua Companhias: CCS, 3346, 3347, 3348. Comemoramos os 46 anos da partida e 44 da chegada.
Aos 30 anos é possível fazer um balanço. Esta aventura iniciou-se com o Miranda e Simões, onde estivemos 60 participantes e foi na Mealhada. A iniciativa surtiu efeito e com a colaboração de outros fomos encontrando camaradas que há muito não víamos: O Ricardo Aparício e o saudoso Miranda de Abrantes, o Jorgelio Rocha, o Godinho, enfim um grupo com iniciativa que foi conseguindo reunir, até 310 participantes. Destes muitos já partiram ou vão encanecendo, tornando cada vez mais raras as presenças. O nosso boletim vais fazendo a ligação entre todos, mas também esse com alguma dificuldade, pela falta de colaboração.
Muito tem contribuido para o sucesso dos convívios a colaboração de algumas senhoras. Em nome da organização, quero expressar o agradecimento, à Cidália, Conceição, Graça, Rosa e Paula, pelo esforço que fazem e pelo apoio que prestam, na cobrança das entradas, que apesar de pagarem o seu bilhete, sujeitam-se àquela confusão, com sacrifício do seu próprio convívio. Obrigado a todas.
Não quero deixar de apresentar o meu agradecimento aos camaradas que oferecem produtos para as rifas. É do produto da sua venda que pagamos o boletim e os selos, bem como pequenas despesas e normalmente a lembrança, já que o custo que cobramos aos participantes é o custo real do restaurante. Neste grupo, que felizmente é numeroso, destacam-se pela sua regularidade, o Neves Afonso, capitão Freitas, Amaral, Lemos, Machado, António Santos e o Domingos Ferreira. Este é especial, pois vem de França para o encontro. Obrigado a todos.
Por fim quero referir o Domingos Sousa, que organiza o autocarro, que desde Guimarães, passando pelo Porto, Espinho etc, consegue levar um grande número de participantes, que de outro modo não estariam presentes. Bem haja.
Finalmente para todos os que estiveram presentes e os que não puderam comparecer, envio um abraço de agradecimento.
Até para o ano, 19 de Maio!

30º Encontro do B.Caç. 3840

30º Encontro do B.Caç. 3840
Quinta das Muralhas - Pampilhosa 20-05-2017

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Jornal de Natal 2007

Vamos lá a escrever alguma coisa, pois o jornal está para sair. Digam da vossa justiça, mas rapidamente.
Uma história, piada ou anedota já é suficiente. Mas digam porra!

3 comentários:

Aramista disse...

Já lá vão 10 dias e não há ninguém que escreva!. É uma vergonha

antonio cerqueira disse...

o primeiro cabo.Antonio cerqueira do batalhao 3840 ccs mais conhecido pelo cantineiro gostaria de contar uma passagem que acomteceu na tentativa quando um belo domingo foi com o sesimbra e o balacó a samsala ver as pretinhas onde tivemos um acidente com o gipe onde o balacó foi logo para o hospital de loanda nunca mais o encontrei gostaria de o encontrar

catarina disse...

É uma vergonha o cerqueira enviou uma mensagem para encontrar o balaco sera que ele morreu

Presença B.Caç. 3840 - Diário de um combatente

Se me perguntarem por que razãoescrevi este diário, hoje não sei responder.
Tenho pensado muito no assunto e, a esta distância, só vejo uma explicação: talvez, no meu íntimo, eu percebesse que
estava a viver momentos de tal maneira marcantes na minha vida que teria que os registar para sempre.
De qualquer forma, o caderno onde escrevi este diário ficou muitos anos esquecido.
Esteve guardado no baú das coisas de pouca serventia, mas também no baú da memória.
Só quando, passado muito tempo, as minhas noites deixaram de ser atormentadas com as imagens da guerra, que me
visitavam em forma de pesadelo, é que ganhei coragem para o reler. Tive, então, uma enorme surpresa: uma grande parte
dos episódios que anotara no diário tinha-se desvanecido na memória. Foi nessa altura que pensei naqueles que comigo viveram aquelas situações e achei que seria interessante publicar um dia aquelas memórias, para que não se perdessem para sempre.
Projecto sucessivamente adiado, entendo ser agora boa altura para o fazer. Desejo dedicar este modesto contributo à preservação da memória a todos os elementos do B.Caç.3840 e, por elementar justiça, de uma forma muito especial
àqueles que estiveram a meu lado em todas as situações relatadas: os bravos elementos do 1º Grupo de Combate
da C.Caç.3347.
Manuel António Santos

Dia 31-05-1971, segunda-feira, 3º dia em Mucondo
Tive o meu baptismo de fogo. Fui numa coluna à fazenda S. Paulo e, a um quilómetro de lá chegarmos, fomos atacados
com fogo de pistola-metralhadora, enquanto a fazenda era simultaneamente flagelada. Ripostámos e durante 45 minutos houve fogo dos dois lados. Atravessámos a pé e a correr a ponte que existe antes de chegar à fazenda e até lá não mais se ouviu fogo. No reconhecimento que depois de fez, nada se apurou. De tarde fui noutra coluna à roça Caiado e depois ao Dange esperar duas camionetas civis. Nada de especial se
passou, somente cheguei arrasado.

Dia 02-06-1971, Quarta-feira, 5º dia de guerr
Fui numa coluna composta por cinco unimogues fazer reconhecimento à áreade Quimbage, ponto de concentração
dos quartéis do M.P.L.A. Tínhamos percorrido algumas centenas de metros numa picada antiga e já quase coberta
de capim, quando ouvi um estrondo enorme acompanhado por uma nuvem de pó negro. Saltámos das viaturas e, ao mesmo
tempo que montávamos segurança à retaguarda porque éramos os últimos, ficámos todos numa enorme ânsia de
saber as proporções do ocorrido. Um cabo a meu lado, dos velhinhos, começou a futurar o pior. Mas a boa notícia chegou: não havia vítimas. Tinha sido uma armadilha montada pelos gajos que foi accionada pelo rodado traseiro dum unimogue da frente. A viatura foi projectada alguns metros para a frente e os seus ocupantes foram impulsionados para o ar. Apesar de no local ter ficado um “buraquinho” com três metros de diâmetro e dois de fundo, ninguém se feriu.
Regressámos em seguida ao quartel e chegámos por volta das 17 horas.

Dia 04-06-1971 – 1ª Operação;
Zona: fazenda Caiado; duração: 2 dias
Dia 16-06-1971 – Novo ataque a S. Paulo
Foram solicitados os nossos serviços e para lá partiu o 4º Grupo de Combate que suportou durante hora e meia fogo
inimigo. De novo os turras montaram uma emboscada para quem socorresse a fazenda.
Terminada a “festa”, verificou-se que da nossa parte não tinha havido problemas e presume-se que eles tiveram pelo menos alguns feridos.

Dia 17-06-1971 – 2ª Operação;
Zona:Dange; duração 2 dias
Dia 18-06-1971
Percorremos vários quilómetros até chegar ao Dange, onde íamos aguardar o transporte para o Mucondo. Tínhamos
passado a noite na mata e embora o percurso fosse difícil, acabei por me rir várias vezes, porque os tombos sucediamse
e ver um fulano rebolar, com toda a tralha toda atrás de si, tem a sua piada.
Saímos às três da tarde do Dange e surgiu então o primeiro contratempo: uma Mercedes avariou e teve que ser rebocada
pela Berliet da frente, onde eu ia com a minha Secção. Mais adiante avariou um unimogue, que passou a ser rebocado
por um outro. Parámos amiudadas vezes e a coluna passou a andar morosamente.
Ao passar por um morro que se levantava à nossa direita, verifiquei que o gajo da metralhadora apontava para o lado contrário e gritei-lhe “para ele virar aquela merda para o morro”.
Tinham passado por esse mesmo local já três viaturas (a minha Berliet e a Mercedes que rebocava, mais um outro
unimogue) , quando a quarta viatura – unimogue – accionou uma mina. Houve grande estrondo e como ia bastante à
frente, deixei parte do meu pessoal a montar segurança e com a restante malta corri para o local do acidente. Aí, os ocupantes do unimogue atingido espalhavam- se pelo chão e queixavam-se com dores. A viatura, ao lado do buraco
deixado pela mina, tinha a parte da frente em mísero estado.
Seguiram-se momentos de inquietação e começaram a prestar-se os primeiros socorros. Faltavam armas e equipamentos também. Enquanto se montava segurança em todas as direcções (o Tavares foi para o morro com a sua Secção), comunicava-se pelo rádio o ocorrido para o quartel. Mais tarde chegou o Capitão com mais um grupo de combate
e tratou-se de rebocar o unimogue sinistrado. Ao mesmo tempo, o médico verificava não haver feridos graves, e o pior
ainda era o Jesus enfermeiro, que tinha um profundo buraco na “pinha”.
Finalmente seguimos em marcha muito lenta para o quartel, onde chegámos às 23 horas. Tínhamos demorado oito horas a fazer 26 km. Chegou-se à conclusão que os gajos tinham no local uma emboscada montada, mas tiveram medo de entrar em acção.
Ah, é verdade, nesse dia fazia anos. Era meia-noite quando comecei a jantar e então, com o Capitão, oficiais, sargentos
e furriéis, houve uma pequena festa.
O Martins tinha preparado tudo e até flores havia a decorar a mesa. Ofertaramme uma garrafa de aguardente “Fim de
Século, e quando às duas horas me deitei, estava arrasado física e moralmente. Assim se passou mais um dia de guerra.

Dia 28-06-1971 – 3ª Operação;
Zona: Roça Luís Filipe; duração 3 dias
Esta operação teve por objectivo reabrir a picada onde os elementos do Batalhão “Sus... a eles” construíram uma pista. Fomos três Grupos de Combate e o Capitão também tomou parte na operação. Os sapadores construíram uma ponte e ainda improvisaram mais duas para as viaturas passarem os rios que íamos encontrando. Não chegámos ao términus devido às dificuldades com que nos fomos deparando. Por exemplo, perdemos um dia a serrar uma enorme árvore
que estava atravessada na picada e acabámos por deixá-la no mesmo sítio.
Uma carga de trotil que se empregou, apenas lhe tirou um bocado de casca...
O meu Grupo, a pé, ainda foi quase até ao objectivo, mas voltou ao encontro das viaturas e do resto da malta.
A zona é bastante perigosa, e segundo informações de um gajo que se entregou, há lá um quartel turra – Mucondo -, que tem 70 mamíferos com armas.
Além desse, há também nas imediações o Mufuque, que já foi bombardeado por nós, mas os gajos ainda lá estão. Encontrámos ainda muitas lavras e pegadas recentes. Um telegrafista dos Cavaleiros,nesta zona , ficou sem um pé.
Dormi duas noites na mata e ao terceiro dia voltámos a pé até ao local onde fomos recolhidos.

Dia 04-07-1971 – 4ª Operação;
Zona: S. Paulo; duração 3 dias
Fomos largados na fazenda Daladiatapara, a partir daí, batermos a zona até S. Paulo. A operação decorreu normalmente e por várias vezes passámos nos locais onde eles montaram as emboscadas anteriores. Na picada, vimos pegadas muito recentes dos gajos e, numa casa abandonada no cimo de um morro, avistámos cascas de laranja também recentes, o que prova que tinham estado lá há bem pouco tempo.
Na casa em ruína, liam-se algumas inscrições: dos nossos -”Os da UPA são todos uns filhos da puta”; deles - “Nós sabemos que somos mais fracos, mas o pouco com Deus é muito e o muito sem Deus é nada” e ainda “Portugueses, por que não deixais o povo angolano em paz?”, etc.
Ao patrulharmos a tonga, estivemos na eminência de apanhar umas rajadas, porque os Voluntários que estavam a fazer
segurança aos bailundos que colhiam café, viram mexer e já estavam atrás de uma camioneta com a arma em posição.
No último dia, quando aguardávamos as viaturas para o regresso, almoçámos em S. Paulo a convite dos gerentes da
fazenda. No almoço, além de mim, estiveram o Tavares, o alferes Gonçalves, o Reis, o Leal e o alferes Baptista. Falouse
sobre cobras e fiquei a saber que a cobra do café – verde e fininha - , dependura- se nas folhas e quando pica a cabeça
de um parceiro não há remédio que lhe valha. A surucucu – pequena, grossa e às pintas pretas - não faz mal nenhum,
salvo se for pisada. Neste caso, pica imediatamente e só há salvação se se fizerem logo dois profundos golpes à volta da parte atingida. É muito sorna e só se desloca dois a três metros por dia. Falou- se ainda na formiga maconde, que quando resolveu ir à fazenda matou galinhas, patos e pombas.
O meu Grupo e o 2º voltaram a Mucondo sem mais problemas.

Dia 12-07-1971 – 5ª Operação;
Zona: Sande; duração 3 dias
Saíram, o meu Grupo, o 4º e o pelotão da 46 e fomos largados na fazenda Sande. Patrulhámos toda a zona e no terceiro dia fomos recolhidos pelo 2º Grupo na picada para o Dange.
Nada de especial a assinalar, a não ser que nos fartámos de andar e chegámos mesmo a ficar perdidos na mata. O
Capitão alinhou nesta operação.

Dia 16-07-1971
O meu Grupo foi ao Dange para trazer duas camionetas civis. Vinte metros depois de passar a ponte que existe antes do Dange e a poucos metros de uma grande ribanceira, um unimogue, inexplicavelmente, enfiou pelo capim dentro.
Parte do pessoal saltou, os outros caíram no capim. Os ferimentos foram ligeiros, mas o azar foi que no local havia “feijão maluco”, que é uma vagem que quando seca larga uns pêlos finíssimos que provocam uma comichão insuportável.
Todo o pessoal ficou à rasca, tiveram que se despir até, e quando chegaram ao quartel alguns levaram injecções.
Por brincadeira, puseram um pouco de “feijão maluco” na cama do Reis e como resultado ele rabiou a noite inteira.
Resumindo, nem só a guerra nos causa arrelias...

Dia 04-08-1971 – 6ª Operação;
Zona: Dange; duração 4 dias
Nesta operação tomaram parte o meu Grupo, o Segundo e alguns homens do Quarto. Como o alferes Gonçalves teve
que ir para Luanda, eu é que comandei o meu Grupo.
No primeiro dia nada de especial se passou. No segundo, andámos bastante e a certa altura começámos a notar indícios
da presença do in. Na confluência de dois rios, numa porção de terra que se assemelhava a uma ilhota, fomos encontrar
um acampamento onde os gajos tinham estado algumas horas antes. Havia ainda inúmeras fogueiras acesas (onde aquecemos as nossas rações de combate) e restos de ração de combate nº 30 (!), cascas de bananas, mandioca, milho, feijão, etc. Pelas fogueiras e também pelas camas, verificámos que eram mais de cem turras.
Escusado será dizer que poucos dormiram nessa noite. Nas árvores havia inscrições deles, com nomes e outras indicações. Eu acabei por dormir na cama onde horas antes tinha dormido um turra.
De noite, nada de espacial se passou e partimos às sete da manhã para continuar a operação.
Logo nos apercebemos da existência de um trilho muito batido e usado ainda recentemente. Abandonámos o trajecto que seguíamos e tomámos o trilho, na certeza que mais tarde ou mais cedo ia haver merda. O trilho principal tinha muitas
ramificaçõs ( para despistar) e durante muito tempo seguimo-lo sem resultado.
Entrámos numa linha de água e a certa altura eu, que ia atrás com o meu Grupo, ouvi fogo nosso. Seguiu-se depois fogo
de Mauser e rajadas de pistola metralhadora. Só soube do que se passava, quando cheguei à frente e vi uma Mauser capturada e me disseram que, pelo menos, tinham lerpado um. Segui então à frente com a minha Secção, enquanto o alferes
Baptista fazia um pequeno reconhecimento no local.
Continuámos a progressão, sempre à espera de mais “festa” que, no entanto, não chegou a surgir. Verificámos que se tratava de um grupo de cinco gajos que quando nos viram fugiram, disparando de vez em quando para trás. Só que
aquele que lerpou, não foi suficientemente rápido e o André – Cabo preto – não esteve com meias medidas.
Depois de tudo isto, iniciámos uma penosa jornada de regresso até ao local onde seríamos recolhidos. Todos eatavam rebentados e chegou-se a pedir para se terminar a operação um dia antes, o que não foi autorizado.
Quando eu e os homens da minha Secção, que seguíamos à frente, chegámos à picada – cansados, sujos e molhados
- foi como se atingíssemos o Paraíso.
Fomos finalmente recolhidos e a nossa chegada ao Mucondo foi quase triunfal, pois contribuímos para o primeiro êxito militar, não só da Companhia como do Batalhão.
Manuel António Santos
- CONTINUA -

DIÁRIO DE UM COMBATENTE - Continuação


Imaginem um dos nossos que, depois de regressar de Angola, perdeu completamente o contacto com todos os camaradas de armas.
Alguém que a partir de certa altura, como aconteceu com quase todos nós, sentiu uma irresistível necessidade de matar saudades, trocar desabafos e apaziguar angústias com aqueles que tinham vivido as mesmas situações traumáticas da guerra, e que por esse facto seriam os únicos que o poderiam compreender e ajudar.
O mesmo que tentou, até por aconselhamento médico, restabelecer esses laços afectivos, mas que viu todas as tentativas que fez revelarem-se infrutíferas.
Que esperou ansiosamente, durante anos, pelo dia 10 de Junho, para se deslocar às cerimónias do dia do Combatente, na esperança vã de encontrar algum camarada conhecido.
Pois esse nosso antigo companheiro nunca desistiu dos seus intentos e finalmente, ao fim de trinta e tal anos, conseguiu graças à internet descobrir maneira de contactar com gente do Batalhão.
Estabelecido o precioso contacto, começou por receber o nosso Boletim, e foi emocionado que leu o Diário onde recordou uma das principais operações em que tinha tomado parte (mais tarde confessou que enquanto lia as lágrimas não lhe pararam de correr). Entusiasmado, quis logo fazer a marcação para o Encontro que se avizinhava. Deram-lhe o contacto do furriel do seu grupo, que vivia na sua zona, e combinaram a boleia (na véspera do Encontro, disse mais tarde, portou-se como um puto e não conseguiu dormir). E no local combinado, quando se encontraram, o abraço que deram foi tão efusivo, que quem os visse ficaria a conjecturar a razão de tal entusiasmo.
Quando chegou, não conseguiu disfarçar a sua emoção. Abraçou os antigos camaradas, mostrou fotografias, falou com toda a gente, querendo sofregamente compensar os anos perdidos.
No fim do Encontro, quando lhe perguntei se tinha correspondido às suas expectativas, não precisava de ter respondido. O Azeredo exultava de felicidade.



Manuel António Santos





Dia 11-10 -1971 – 10ª Operação; Zona: Catoca; duração 3 dias

Nesta operação fui a comandar o meu Grupo e fomos largados, mais o 2º e 3º Grupos, na Cova das Pacaças.
Apanhámos logo um trilho que nos levou, ainda nesse dia, a uma lavra (já conhecida) do Catoca.
Dormimos em plena lavra e nada de especial aconteceu.
Depois de várias voltas, tomámos o trilho de regresso, que já utilizáramos na operação anterior, e viemos sair perto da ponte do Luíca, onde fomos recolhidos pelo 4º Grupo.

Dia 29-10-1971 – 11ª Operação; Zona: MPLA; duração 2 dias

Fomos largados, com o 4º Grupo, no Sande.
Seguimos um trilho que vai dar a vários quartéis do MPLA (Haiti, Bolívia, Tanzânia, etc.).
Ao fim da tarde, topámos uma cubata de uma sentinela, com indícios de presença recente – fogueira acesa, dendê, latas, uma garrafa… - pelo que resolvemos logo montar lá uma emboscada, na esperança que o gajo (ou gajos) voltasse.
Fiquei emboscado três horas, com mais cinco homens, mas sem qualquer resultado.
Estava já escuro, quando o resto do Grupo nos veio recolher, para seguirmos para o local onde passaríamos a noite, que supostamente o 4º Grupo já devia ter escolhido.
Foi com enorme dificuldade que chegámos até eles, e então demos conta que não tinham arranjado sítio para ficarmos.
O tempo entretanto começou a ficar feio, e a chuva estava iminente. Desenrascámo-nos o melhor possível e eu, por exemplo, fiquei num local totalmente inclinado, onde não podia esticar as pernas, se não batia com elas na cabeça do Eusébio.
Seguiu-se o esperado vendaval, com chuva a cântaros, trovoada e relâmpagos, mesmo em cima de nós. Quer pela incómoda posição, quer por causa da chuva que entrava por todos os lados, quase não dormi e foi mesmo, até à altura, a pior noite que passei na mata.
O meu jantar foi um bocado de casqueiro e água. A noite nunca me pareceu tão longa mas, finalmente, chegou a manhã e às oito horas iniciámos a marcha de regresso.
Embora completamente arrasados – nunca senti tanto calor – finalmente chegámos ao Sande, onde bebi umas cervejas e uns whiskies, enquanto não chegava a coluna com o 3º Grupo, que nos recolheu.
Segundo depois me informaram, também tinha havido temporal no Mucondo, que até arrancou uma árvore, chapas dos telhados, uma pesada tampa do depósito da água, etc.

12-11-1971 – 12ª Operação; Zona: MPLA; duração 3 dias

Iniciámos a operação na picada do Quijoão. Para esta operação foram dois grupos de combate – o Primeiro e o Quarto. Para fugirmos da vista de uma sentinela, que o guia disse haver próximo, logo entrámos na mata. Ainda de manhã, topámos algumas cubatas de sentinelas, pegadas do próprio dia, e várias covas de lobo, quase todas com paus bastante afiados no fundo.
Ao início da tarde, encontrámos um trilho batidíssimo e, pouco depois de entrarmos nele, ouvimos um tiro, de certo de uma sentinela que nos avistou. Prosseguimos no trilho e fomos dar ao quartel turra de nome Bolívia, que a Companhia anterior à nossa tinha destruído. Montámos o dispositivo para passar a noite nesse mesmo local, no meio das cubatas arruinadas.

Dia 13-11-1971 (sábado)

Eu e o alferes Silva tínhamos construído, com os ponchos, uma pequena barraca onde, pelas cinco e meia da manhã, despertei ao som de rajadas. O Duarte, do meu grupo, estava de sentinela e ao olhar em frente, a uns quinze metros, viu um turra latagão já com a Mauser apontada. Precipitadamente, pôs a arma em rajada e atirou-lhe, o mesmo fazendo mais uma série de malta. O gajo, no entanto, pôs-se nas putas, devendo ter apanhado o maior cagaço da vida dele.
Arrumámos logo as coisas e seguimos no trilho, prontos para o que desse e viesse. Andados uns quinhentos metros, mais um tiro de uma sentinela se ouviu, este já próximo das lavras, a que chegáramos entretanto. Mais à frente, outro balázio, este já por cima da malta. Logo adiante, encontrámos o acampamento onde, além de tábuas escritas com indicações importantes, galinhas, colheres, uma cadeira rotativa metálica e um cão, mais nada encontrámos.
Deitámos fogo àquela merda toda e depois voltámos atrás, pensando no regresso.
Apanhámos a picada abandonada do Quimbage, onde, a certa altura, vimos o buraco da primeira mina que nos rebentou.
Chegámos finalmente ao local onde tínhamos sido largados, onde comunicámos para o quartel a perguntar a possibilidade de sermos recolhidos nesse dia. Responderam afirmativamente, mas o ponto de recolha só era possível para lá do Quicunzo.
Fizemos mais uma maratona até lá, debaixo de um calor escaldante. Era já noite, quando o 3º Grupo nos recolheu.
Nesta operação quem foi no meu pelotão foi o alferes Aparício, e no 4ª o alferes Silva. O Tavares estava de férias.






Manuel António Santos
- CONTINUA –

DIÁRIO DE UM COMBATENTE

Chega ao fim a transcrição deste Diário que veio sendo publicado nos últimos números do nosso Boletim. É certo que na segunda parte da comissão, já nas Mabubas, também se chamavam operações a umas voltitas que dávamos ao redor da barragem, mas desses passeios só me lembro das noites abafadas e dos milhões de mosquitos que, se não tivéssemos redes mosquiteiras, nos sugariam até ao tutano. O barulho que faziam, no silêncio da noite, fazia lembrar um ataque da aviação.
Modéstia à parte, a narrativa que recuperei do caderno que esteve tantos anos propositadamente esquecido, teve dois fins meritórios. Em primeiro lugar, fez lembrar àqueles que viveram as situações descritas os pormenores que o tempo já inevitavelmente tinha transformado numa nebulosa e que, inexoravelmente, acabariam um dia por se perderem para sempre. Por outro lado, talvez o facto mais importante tenha sido dar a conhecer a quem teve a felicidade de não imaginar sequer a realidade de uma guerra – a mais estúpida das coisas estúpidas – as situações a que estiveram sujeitos milhares de jovens que foram obrigados a entrar numa guerra que não queriam e que nada lhes dizia.
E esses jovens foram uns heróis. Não porque tivessem ganho qualquer guerra, mas porque apesar da verdura dos seus vinte anos, quase todos conseguiram vencer as vicissitudes para que foram empurrados.
Suportaram o frio e o cacimbo das noites dos Dembos, o calor sufocante e o cansaço durante caminhadas de dias inteiros, dormiram nos sítios mais incríveis, umas vezes no meio da bosta de elefantes e de outros animais, outras sob temporais medonhos com chuva diluviana e trovões e relâmpagos próprios do clima de África.
Sofreram com a fome e da sede ficaram a saber que é a necessidade primária que o indivíduo mais dificuldade tem em suportar. Com os cantis vazios e sem se saber quando vai ser possível voltar a encontrar água, o cérebro entra em parafuso e beber passa a ser uma obsessão.
E passaram por situações limite quando sentiram aquele que deve ser o pior dos medos: a sensação horrível de sentir o silvo rasante de uma bala.
E outros medos com minas a rebentar e emboscadas na picada ou dentro da mata. E experimentaram algo que, se possível, ainda é pior que o medo: a tensão, quando se espera um ataque que se sabe que vai acontecer, podendo até ser no segundo seguinte.
Atravessaram rios caudalosos, penetraram na mata virgem e foram atacados por formigas e outra bicharada.
No entanto, com um espírito que não foi só de camaradagem e amizade, mas sim de verdadeira irmandade, tudo venceram.
E, como o último parágrafo deste Diário curiosamente descreve, ainda tiveram ânimo e disposição para brincar com as adversidades. Gente formidável
Manuel António Santos


Dia 18-02-1972 – 16ª Operação (Operação Facada) Zona:
Campo de Majores; duração 4 dias.
Actuaram desta vez o 1º, 2º e 4º Grupos, que foram
largados na Ponte Totobola.
A picada até lá é péssima e a zona não é nada convidativa. Está lá destacado um pelotão da Companhia do Piri e as suas instalações são construídas inteiramente em cimento armado.
Algumas horas antes da nossa largada, muito perto do local em que apeámos, tinha rebentado uma mina à Companhia do Sus…a eles, que
esteve no Mucondo, e tinha morrido um soldado que eles vieram trazer ao
destacamento para prosseguir a operação.
Seguimos um trilho que acompanhava o Dange, e no mesmo dia já tínhamos apanhado dois gajos e sido detectados.

Dia 19-02-1972

Embora estivesse previsto atacar o objectivo no dia seguinte, resolveu-se arrumar o assunto o mais depressa possível.
Atacámos primeiro o Hanói 1, onde embora fossemos recebidos com tiros entrámos a matar com rajadas de G3 e granadas defensivas.
Depois de destruir toda aquela porcaria, seguimos para o Hanói 2 que ficava a duas horas de caminho.
Cedo começou a festa, com os gajos dispostos a não nos querer deixar entrar.
Nestes dois quartéis, os cabrões têm 19 armas e é lá a sede do M.P.L.A., funcionando ainda como campo de instrução.
Respondemos com rajadas, granadas e morteiradas, e só com muito custo é que conseguimos expulsar os gajos. Foi um tiroteio do caralho, talvez até a situação em que houve mais barulho. Aliás, isso compreende-se, até porque desde 1969 ninguém tinha conseguido lá entrar.
Apanhámos uma Mauser e uma granada defensiva, e como o pessoal estava todo rebentado, pedimos a recolha para o dia seguinte, o que só veio a acontecer na manhã de 21, sendo um grande alívio quando apareceram os
hélis para nos levar.

Dia 28-02-1972 – 17ª Operação; Zona: S. Paulo; duração
3 dias

Constou de patrulhas e emboscadas na área.
Uma operação porreira, a lembrar os “belos tempos”.
Tomaram parte o 1º e 3º Grupos.

Dia 11-03-1972 – 18ª Operação; Zona: Caiado; duração 2
dias

Tratou-se de um reconhecimento onde, na ante-véspera, os Voluntários tinham tido uma emboscada onde lerpou um e quatro ficaram feridos.

Dia 15-03-1972

Íamos a S. Paulo largar o 2º e 4º Grupos, quando a dez minutos do quartel nos rebentou uma mina.
Houve feridos, mas ligeiros. Voltámos atrás para rebocar a viatura atingida. Seguimos meia hora depois, mas não houve mais problemas.
A viatura que acionou o engenho (de fraca potência) ia em 2º lugar, atrás da Berliet. Eu seguia na última, também uma Berliet.

Dia 10-05-1972 – 19ª Operação; Zona M.P.L.A.; duração
4 dias

Foram três Grupos com bailundos para cortar milho e mandioca nas lavras.
No regresso, o 4º Grupo, quando nos ia recolher, rebentou mais uma mina que provocou um ferido – o Fernandes – que foi para Santa Eulália e posteriormente para Luanda.

Dia 26-05-1972 – 20ª Operação; Zona Campo de Majores;
duração 3 dias

Tomaram parte nesta operação o 1º, 3º e 4º Grupos.
Fomos lançados de héli às 11:40 e às 12:20 estávamos a entrar no acampamento.
Pelo caminho houve a festa habitual e numa das vezes o Gomes, do 3º Grupo, apanhou um tiro no bolso das calças do camuflado!
À entrada, os gajos fizeram bastante fogo, mas conseguimos pô-los nas putas.
No regresso, viemos ter à Ponte Totobola e dormimos uma noite – com muitos mosquitos – no fortim que está lá a guardar a ponte.

Dia 04-06-1972 – 21ª Operação; Zona Matete (UPA);
duração 4 dias

Actuámos, juntamente com a Artilharia, no corte de lavras.
Cortaram-se milhares de pés de mandioca e jinguba.
Não fomos chateados durante os quatro dias, ao contrário da outra Companhia.
Tivemos que atravessar por duas vezes um rio com grande caudal, o que se tornou difícil, de tal maneira que alguns caíram com toda a tralha dentro de água, para gáudio do resto da malta.

FI M

Manuel António Santos

NA PICADA DO QUIJOÃO.NO ANTIGAMENTE.

Ali estavam, em rota de colisão. Não o imaginara assim tão fácil, assim tão à mão, algo desajeitado e trancalhadanças, mas mesmo assim ali, tão disponível. Ele tinha um joelho apoiado com força na terra húmida e vermelha, enquanto a perna esquerda se firmava, com muita força, sobre toda a superfície da bota preta. Tenso, mas sereno, sentia o coração bater violentamente sobre os tímpanos, ao mesmo tempo que sentia que era o momento porque tanto ansiara ... afinal aquele momento exigira-lhe meses de treino, de preparação psicológica, de acção retardada e de uma intensa curiosidade.

Olhou em volta e reparou que os caminhos ambos convergiam para um ponto próximo do horizonte, o seu elevado em relação ao plano do outro, que corria mais abaixo. Ambos se encontravam bordejados por renques de árvores muito fechadas, deixando um alo de penumbra perpassar até quase meio da clareira, por onde o outro caminhava. Erva baixa, luz rasante proporcionada pelo ocaso do astro que se punha para lá do território das suas costas.

Os outros quatro homens da secção tinham-se deixado escorregar, sem um som, para a terra, e estavam agora deitados sobre o solo, colados ao solo, quase invisíveis, àparte o lume dos olhos, que brilhavam muito. Ele ajeitou as pernas, alargando-as ligeiramente e com uma lentidão precisa, levantou a G3 e encostou o rosto ao fuste, ajustando o olho direito em direcção ao orifício do diopter. Não sabia porque é que se chamava assim, mas era assim e pronto. Ajuizou a distância que os separava e devagar, rodou-o para a marcar dos 200 metros, sem ruído.

Focou-o pelo orifício: o outro continuava a andar, num passo elástico e saltitante, característico dos muito magros; uma camisola de algodão esfarrapada que em tempos teria sido branca, ou mais provavelmente cinzenta, caía para cima das calças igualmente estropiadas; os pés iam nus e na mão transportava uma garrafa de vidro, o que fazia com certo cuidado.

Estavam agora na proximidade ideal. Ele levantou um poucochinho o cano da arma e a mira postou-se exactamente no enfiamento do tronco, algo saltitante, do outro, subitamente transformado em homem - alvo. Reter agora a respiração, fechar o olho esquerdo, palpar a folga do gatilho até ao ponto óptimo, corrigir a trajectória provável, fez tudo assim, fez tudo bem.

Respirou fundo e olhou os seus homens , que aguardavam completamente imóveis. Olhou de novo o homem que se aproximava: aquele era finalmente o IN, o que vinha mansamente na sua direcção, sem saber que tinha sido detectado. Procurou-lhe então a bandoleira da arma, que deveria vir suspensa sobre o ombro. Mas não tinha mais nada além da garrafa, onde oscilava um líquido turvo. Conseguia agora ver tudo, com espantosa nitidez; o rosto negro sulcado por duas rugas fundas como molduras rasgadas em torno dos lábios grossos, os braços magros, o corpo ossudo, o andar descompassado, mas da arma nem sinal.

Sentiu então o corpo distender-se, e baixou ligeiramente o cano da espingarda, apontando-o para um ponto qualquer, ligeiramente para a frente dos pés do homem, e o tiro partiu. O estrondo sossegou o cantar das aves e momentaneamente o silêncio tornou-se completo. O homem estacara e súbito, em três cambalhotas de malabarista, mergulhou na mata.

Os seus homens levantaram-se e sacudiram o pó dos camuflados, olhando-o reprovadores. Um deles dirigiu-se para garrafa, e susteve-a pelo gargalo; lá dentro, marufo fermentado convidava a um golo. A garrafa passou de mão para mão, e ele foi o último a pegar-lhe; uma garrafa de vidro com uma escala graduada numa das faces em tudo igual àquelas em que a mãe levava o vinho, metida no cabaz forrado por uma toalha branca, juntamente com duas panelinhas de alumínio brilhante, a da sopa e a do conduto, tudo ainda morno, a que se sobrepunha o odor do pão, forte, de trigo amassado em casa. E o pai era assim principescamente servido à porta da fábrica, que dava para o rio, que corria sempre e sempre.

Pôs-se de pé. O sítio onde a bala embatera era apenas um sulco breve no barro que sustinha o capim. Tinha sede e sentia o aço quente do disparo. Correu a patilha para a posição S, deu uma pequena palmada sobre o carregador, e retomou a marcha.

Olhou para trás: os seus homens pegaram cada um nos braços da maca improvisada, onde bamboleava o cadáver do seu camarada, abatido algumas horas antes numa emboscada do inimigo. No silêncio que pesava, só os passos surdos sobre a erva.

- Furriel, disse o mais alto do grupo, o marufo estava quente...

E ninguém disse mias nada; afinal, não eram um bando de assassinos.

Rogério Carvalho

DE BORDO DO VERA CRUZ – OS PRIMEIROS AEROGRAMAS

Vera Cruz, 15-5-71 – 1º dia

Queridos pais:

Desejo que estejam de perfeita saúde, que eu neste primeiro dia de viagem não podia estar melhor.

Resolvi escrever um aerograma por dia para vos contar como decorre esta minha viagem. É natural que só os possa enviar de Luanda e para o caso de os receberem todos juntos, eles vão devidamente numerados segundo a ordem por que foram escritos.

Saímos de Santa Margarida hoje, sábado, às duas da manhã num comboio que nos trouxe directamente ao cais da Rocha de Conde de Óbidos, onde embarcámos. Chegámos às sete da manhã, às dez e meia tivemos o habitual desfile e em seguida entrámos logo para o barco. Houve aquelas habituais cenas de despedidas e mais uma vez comprovei que quem sofre mais nestes casos são as pessoas que ficam.

Agora, já com 12 horas de viagem, posso dizer-vos o seguinte: as instalações são boas e há camarotes para cinco. Às refeições há dois pratos e sobremesa, o horário é pequeno-almoço às oito, almoço ao meio-dia, lanche às quatro e jantar às sete. Não tenho até agora qualquer problema de enjoo e, segundo os que já fizeram esta viagem muitas vezes, é esta a pior parte da viagem para isso.

Vim encontrar aqui muita malta conhecida, que vai noutros batalhões também para Angola.

E parece que é tudo que há para contar deste primeiro dia. Portanto e em resumo, tudo a correr ainda melhor do que contava.

Até amanhã, ou seja, continua no próximo episódio.

Vera Cruz, 16-5-71 (domingo) – 2º dia

Neste segundo dia de viagem continuo óptimo.

Grande parte dos meus camaradas está com problemas de enjoo, mas eu tenho resistido a tudo isso. Tenho comido e bebido bem e até já se foi o bacalhau e um salpicão, que por acaso era muito bom.

Já passámos a Madeira, mas ao largo. Passei quase todo o tempo na nossa sala de estar que é muito jeitosa, por sinal. Hoje até estive a jogar umas partidas de pingue-pongue.

Agora à noite tivemos variedades com um conjunto que tocou umas coisas jeitosas e ainda actuou um colega nosso que é imitador e deu show.

Tudo isto tem servido para ajudar a passar o tempo. Quanto ao tacho, tem-se comido bem e a ementa traz cada nome que até se torna giro. Por exemplo, vou passar a do jantar de hoje:

SOPA – Puré Faubonne; PEIXE – Peixe à Bretone; ENTRADA – Escalopes de vaca à Delfina; LEGUME – Couve verde salteada; BATATAS – Puré e cozidas; MOLHOS – Remolar e verde; SOBREMESA – Doce bávaro de baunilha, fruta verde e seca; CHÁ, CAFÉ ou LEITE. Como vêem, nada mau.

Segundo dizem, o mar a partir de agora estará cada vez mais sereno.

Neste momento estou a ouvir o relato de hóquei do Portugal-Inglaterra e nesta altura está 2-0 a nosso favor. Naturalmente que desta vez seremos campeões.

E de hoje não há mais nada para dizer. Até amanhã.

Vera Cruz, 17-5-71 (segunda-feira) – 3º dia

O terceiro dia a bordo foi passado da melhor maneira e muitas vezes até me esqueci que estava a andar de barco.

O pequeno almoço, além do habitual café com leite, constou ainda de um pratinho com carne guisada que até soube muito bem. Ontem, também ao pequeno almoço, tinha sido arroz de peixe. Portanto, sempre a comer.

Também de manhã tomei chuveiro, nada aqui falta.

Ao almoço comi bem e o prato de carne era feijoada que estava mesmo boa.

Aqui, de contrabando, vende-se mil e uma coisas. Muitos camaradas meus já compraram máquinas fotográficas, relógios, canetas, etc. A minha única compra até agora foi uma faca de mato que custou 120$00. Além de um álbum para fotografias, não tenho intenção de comprar mais nada.

À noite houve cinema, exibindo-se um filme de espionagem da série 007.

O mar está muito calmo, parece mesmo um rio. O calor começa a aparecer visto já estarmos na costa de África.

E acerca de hoje é tudo. Mais um dia passou e bem.

Até amanhã

Vera Cruz, 18-5-71 (terça-feira) – 4º dia

Continuo a fazer uma belíssima viagem. Cada vez melhor e cada vez me lembro menos que estou a viajar de barco.

Hoje, ao pequeno-almoço, comi iscas de fígado com batatas além, claro, do café com leite e pães com manteiga. Ao almoço, o prato de carne foi bife. Quanto ao lanche, às quatro horas, constou de chá e bolos.

Como verificam pelo que lhes tenho dito, a minha vida aqui tem sido quase só comer e descansar.

De manhã tivemos um treino de salvamento e usámos todos coletes salva-vidas. Tocou o alarme e toca tudo a correr para a sua baleeira.

Tivemos que atrasar o relógio duas horas, portanto enquanto aqui são dez horas neste momento, aí na Metrópole é meia-noite. Quando chegarmos a Luanda, voltamos a regular a hora pela Metrópole.

Num aerograma anterior disse que estávamos cinco no camarote, mas enganei-me pois são só quatro.

Tem-se avistado peixes-voadores e hoje, mesmo à beira do barco, passou um tubarão,

que é um bicharoco que mete respeito.

Já passámos ao largo de Cabo Verde, amanhã passaremos a Guiné.

Neste momento estamos quase a meio da viagem e hoje já esteve mais calor que nos dias anteriores.

Também temos piscina, que ainda não utilizei. O conjunto tem-se exibido mais vezes e com agrado.

E por hoje é tudo. Até amanhã.

Vera Cruz, 19-5-71 (quarta-feira) – 5º dia

Este dia decorreu igual aos outros, bem disposto e sem fazer nada.

Estive de serviço (sargento de dia à Companhia), mas não tive trabalho nenhum. Limitei-me a apresentar ao oficial de dia e a assistir às refeições dos soldados. Estes, pelo que vi, também comem bem e com muita limpeza. A louça é de porcelana e têm vinho e fruta a todas as refeições. Só nas instalações é que tiveram pouca sorte, porque calhou à minha Companhia ir para o porão e aquilo lá é insuportável devido ao calor e ao mau cheiro.

Durante o dia avistaram-se grandes cardumes de peixes-voadores, que proporcionaram um espectáculo divertido.

O mar tem-se mantido muito sereno e agora já quase ninguém tem problemas de enjoo.

Continuo a comer muito e bem. A sobremesa tem constado de doce e fruta verde.

Cada vez faz mais calor e o ar tem estado muito abafado.

Hoje já passámos a Guiné e o mesmo é dizer que estamos a meio da viagem.

E o relato do dia de hoje está feito. Ainda houve cinema, mas como estava muito calor, preferi estar antes a apanhar ar fresco.

Vera Cruz, 20-5-71 (quinta-feira) – 6º dia

Hoje, logo pela manhã, tomei um bom duche que me deixou bem disposto.

Tivemos, como de costume, a formatura às 8:30.

Consegui que um camarada me cedesse uma camisa fresca de manga curta, que estava a precisar, porque calor agora é mato. Quando chegar a Luanda vou comprar mais e ainda peúgas pretas, que são as que posso trazer com sapatos. Como trouxe de casa alguns pares escuros, a coisa tem remediado. A propósito, as de algodão que compraram saíram barrete, porque o par preto que calcei, no mesmo dia já estava roto.

Pela primeira vez nos últimos dias, passou por nós um navio de outra nacionalidade, que embora distante foi por nós admirado.

O mar, de tão calmo, até nos leva a desejar que houvesse uma amostra de tempestade, só para ver o efeito.

Tenho jogado umas partidas de ténis de mesa, que tem servido para passar o tempo. Já foram três bolas ao mar, mas há sempre mais uma bola desconhecida que espera por nós.

Tirei já várias fotografias que, se ficarem boas, envio quando chegar a Luanda. Não acredito muito, porque embora haja muitos fotógrafos, foram todos feitos à pressa.

A bica, depois das refeições, é de borla. A cerveja custa 4$50 e as garrafas, depois de vazias, mandam-se pela borda fora.

Para passar o tempo, tenho lido uns livritos que me emprestaram e que são jeitosos.

Aqui a nossa sala de estar é muito ampla e cheia de maples e poltronas. Esta viagem, noutras circunstâncias, seria maravilhosa.

E vai chegando, por agora.

Até amanhã, para contar mais umas labercas.

Vera Cruz, 21-5-71 (sexta-feira) – 7º dia

A viagem continua a decorrer da melhor maneira.

Pela primeira vez choveu e, embora durante pouco tempo, caiu água a potes.

Hoje atravessamos o Equador e parece que estão programadas umas praxes para aqueles que o vão passar pela primeira vez. Eu, como sempre, vou ver se me desenfio dessas coisas.

Aproxima-se o fim deste cruzeiro, segundo dizem chegamos ao largo de Luanda ainda

no domingo, mas só atracamos na segunda-feira às 8 horas da manhã.

Contra o habitual, hoje às 14:30 não houve formatura.

Uma coisa que me esqueci de dizer, é para o Pai ver a correspondência que vai aí para casa. Se entender que é coisa que me interessa, agradeço ma enviem para cá, a outra (folhetos de livros, por exemplo), arrumem-na aí para um canto. Para me escreverem, utilizem o endereço que indico no remetente.

Consta que antes de partirmos para o Leste, ficamos ainda algum tempo em Luanda, no Grafanil.

Vou aproveitar, nessa altura, para conhecer a cidade.

São quase quatro da tarde, portanto está na hora do lanche e este não se pode perder.

Até amanhã.

Vera Cruz, 22-5-71 (sábado) – 8º dia

Vamos ao largo de S. Tomé e Príncipe. Está uma temperatura agradável. O Equador já ficou para trás e com ele aquele calor tórrido, que se tornava doentio. A temperatura ontem foi de tal modo, que até pouco consegui dormir de noite.

Continuo com óptima disposição.

Segundo o previsto, na segunda-feira de manhã desembarcamos e vamos de comboio para o Grafanil. Desconheço ainda os dias que ficarei lá.

Como aqui os dias são muito iguais, já me vão faltando motivos para focar neste diário de bordo. No entanto, ele já termina amanhã.

Aproxima-se a hora do lanche, que não se pode perder. Toca, portanto, a deitar abaixo mais uns bolinhos com chá. Ao almoço, foi pastéis de bacalhau com arroz de tomate e cozido à portuguesa. A sobremesa foi banana.

Amanhã vai haver treino para o desembarque, porque 1.880 militares não podem sair ao mesmo tempo.

E por hoje é tudo. Até amanhã.

Vera Cruz, 23-5-71 (domingo) – 9º dia

Chegou finalmente o último dia de viagem.

Hoje já navegamos ao largo da costa de Angola. Cabinda já ficou para trás. Conforme já disse, desembarcamos amanhã de manhã.

A temperatura agora está amena e, embora esteja calor, corre uma aragem fresca.

De manhã tomei duche e barbeei-me, ficando assim pronto para a saída. Vou também preparar as malas para amanhã.

No Grafanil, segunda-feira de tarde, haverá revista pelo General-Comandante de Angola. Ainda se desconhece os dias que ficaremos lá.

De tarde vou ouvir os relatos de futebol e aqui pelos telegramas noticiosos sei que o meu Porto joga com o Ferroviário de Lourenço Marques.

Ontem à noite assisti a mais um programa de variedades, agora feito por malta militar.

Não sei se já vos disse que para me escreverem devem utilizar o endereço que vai no remetente.

Com o terminar da viagem, acaba também este diário. Depois, de Luanda, volto novamente a mandar notícias.

Até lá recebam abraços para vós e saudações para as pessoas amigas.

Manuel

MANUEL ANTÓNIO SANTOS

Mapa de Angola

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