Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012

Quarenta anos!


Meus caros,
Faz hoje 40 anos (dia 29 de Fevereiro de 1972) que o B.Caç. 3840 teve a primeira baixa em combate. O Soldado at 098807/70 António Ribeiro da Fonseca da C.Caç. 3346 morreu em combate. Neste mesmo dia ficou ferido o 1º cabo 11508870 Gil Maia Simões da mesma companhia. Estas baixas ocorreram na operação Finta cuja zona de acção foi: Meridianos- 143705 Paralelos- 080020, cujos resultados foram: Destruidos AC IN "Zemba Turra" com cerca de 50 cubatas em reg. aprox. (1437.0800). Destruidos diversos meios de vida. Capturados 1H, 2M, e 1 criança. (do relatório de operações do B.Caç. 3840 do mês de Fevereiro de 1972).
Paz à sua alma...
Lembremos os que nos deixaram e que nos ajudaram a cumprir a nossa missão

24º ENCONTRO DE B.CAÇ. 3840

O próximo encontro, o 24º será realizado no próximo dia 21 de Maio, no Clube Casa de Campo, Quinta Nova de Gedebe em Évora
O restaurante fica na Estrada do Redondo
Cerca das 11 horas, haverá uma romagem ao Ex-RI16, onde será a concentração.
Ás 13 horas será o almoço.
Fará 40 anos, no0 próximo dia 15 de Maio, que embarcamos para Angola. Será uma óptima ocasião para nos encontrarmos e relembrarmos a vida que naquela altura atravessamos.
Éramos jovens e a vida começava e foi aí interrompida, para satisfazermos a vontade político de políticos sem visão, e que obrigaram milhares de jovens, como nós a sofrer uma guerra de 12 anos, para defendermos interesses que não eram os nossos, mas de grandes grupos económicos, que nessa altura, como hoje, determinam a política.
Muitos morreram ou ficaram deficientes. Nós, felizmente chegamos inteiros, e conseguimos comemorar os 40 anos. Vamos fazê-lo!...
Haverá um autocarro que sairá do norte, com possibilidade de paragem em Coimbra, se houver interessados.
Apareçam.

Horário:

11h00 – Concentração, em frente ao Ex-RI16, seguida de visita ao quartel

13h00 – Almoço

Ao cair da noite: Despedida com bolo e champanhe

Inscreve-te para
bcac3840@sapo.pt

Para o tel 934286272,
252620222,- Luis Eusébio,
até dia 5 de Maio de 2011, impreterivelmente.

Ou por correio para:

ANTÓNIO ALVARO SILVA MARTINS
Rua Alto do Viso 222
4460 222 SENHORA HORA

NA PICADA DO QUIJOÃO.NO ANTIGAMENTE.

Ali estavam, em rota de colisão. Não o imaginara assim tão fácil, assim tão à mão, algo desajeitado e trancalhadanças, mas mesmo assim ali, tão disponível. Ele tinha um joelho apoiado com força na terra húmida e vermelha, enquanto a perna esquerda se firmava, com muita força, sobre toda a superfície da bota preta. Tenso, mas sereno, sentia o coração bater violentamente sobre os tímpanos, ao mesmo tempo que sentia que era o momento porque tanto ansiara ... afinal aquele momento exigira-lhe meses de treino, de preparação psicológica, de acção retardada e de uma intensa curiosidade.

Olhou em volta e reparou que os caminhos ambos convergiam para um ponto próximo do horizonte, o seu elevado em relação ao plano do outro, que corria mais abaixo. Ambos se encontravam bordejados por renques de árvores muito fechadas, deixando um alo de penumbra perpassar até quase meio da clareira, por onde o outro caminhava. Erva baixa, luz rasante proporcionada pelo ocaso do astro que se punha para lá do território das suas costas.

Os outros quatro homens da secção tinham-se deixado escorregar, sem um som, para a terra, e estavam agora deitados sobre o solo, colados ao solo, quase invisíveis, àparte o lume dos olhos, que brilhavam muito. Ele ajeitou as pernas, alargando-as ligeiramente e com uma lentidão precisa, levantou a G3 e encostou o rosto ao fuste, ajustando o olho direito em direcção ao orifício do diopter. Não sabia porque é que se chamava assim, mas era assim e pronto. Ajuizou a distância que os separava e devagar, rodou-o para a marcar dos 200 metros, sem ruído.

Focou-o pelo orifício: o outro continuava a andar, num passo elástico e saltitante, característico dos muito magros; uma camisola de algodão esfarrapada que em tempos teria sido branca, ou mais provavelmente cinzenta, caía para cima das calças igualmente estropiadas; os pés iam nus e na mão transportava uma garrafa de vidro, o que fazia com certo cuidado.

Estavam agora na proximidade ideal. Ele levantou um poucochinho o cano da arma e a mira postou-se exactamente no enfiamento do tronco, algo saltitante, do outro, subitamente transformado em homem - alvo. Reter agora a respiração, fechar o olho esquerdo, palpar a folga do gatilho até ao ponto óptimo, corrigir a trajectória provável, fez tudo assim, fez tudo bem.

Respirou fundo e olhou os seus homens , que aguardavam completamente imóveis. Olhou de novo o homem que se aproximava: aquele era finalmente o IN, o que vinha mansamente na sua direcção, sem saber que tinha sido detectado. Procurou-lhe então a bandoleira da arma, que deveria vir suspensa sobre o ombro. Mas não tinha mais nada além da garrafa, onde oscilava um líquido turvo. Conseguia agora ver tudo, com espantosa nitidez; o rosto negro sulcado por duas rugas fundas como molduras rasgadas em torno dos lábios grossos, os braços magros, o corpo ossudo, o andar descompassado, mas da arma nem sinal.

Sentiu então o corpo distender-se, e baixou ligeiramente o cano da espingarda, apontando-o para um ponto qualquer, ligeiramente para a frente dos pés do homem, e o tiro partiu. O estrondo sossegou o cantar das aves e momentaneamente o silêncio tornou-se completo. O homem estacara e súbito, em três cambalhotas de malabarista, mergulhou na mata.

Os seus homens levantaram-se e sacudiram o pó dos camuflados, olhando-o reprovadores. Um deles dirigiu-se para garrafa, e susteve-a pelo gargalo; lá dentro, marufo fermentado convidava a um golo. A garrafa passou de mão para mão, e ele foi o último a pegar-lhe; uma garrafa de vidro com uma escala graduada numa das faces em tudo igual àquelas em que a mãe levava o vinho, metida no cabaz forrado por uma toalha branca, juntamente com duas panelinhas de alumínio brilhante, a da sopa e a do conduto, tudo ainda morno, a que se sobrepunha o odor do pão, forte, de trigo amassado em casa. E o pai era assim principescamente servido à porta da fábrica, que dava para o rio, que corria sempre e sempre.

Pôs-se de pé. O sítio onde a bala embatera era apenas um sulco breve no barro que sustinha o capim. Tinha sede e sentia o aço quente do disparo. Correu a patilha para a posição S, deu uma pequena palmada sobre o carregador, e retomou a marcha.

Olhou para trás: os seus homens pegaram cada um nos braços da maca improvisada, onde bamboleava o cadáver do seu camarada, abatido algumas horas antes numa emboscada do inimigo. No silêncio que pesava, só os passos surdos sobre a erva.

- Furriel, disse o mais alto do grupo, o marufo estava quente...

E ninguém disse mias nada; afinal, não eram um bando de assassinos.

Rogério Carvalho

HERÓIS DO MUCONDO

Manuel Santos(Março de 2000)

Rei da manga de capote

Atum e feijão fradinho.

Pantagruel é um nabote

À beira deste “vaguinho”


De um pequeno furriel

È que veio a grande tática:
Bombardear sem cartel,

Mas com máquina fotogáfica.


Perito em comunicações

A sua arte era tal,

Que até tinha ligações

Dentro do bairro Marçal.


Era um queijo de eleição,

O do Reis fazua inveja;

E todos, sem excepção,

Queriam comê-lo, salvo seja!


- Furriel, ando doente

- Furriel, estou apanahdo…

Tratou bem toda a gente,

Ficou ele cacimbado.


Foi parar à Unidade

Por engano, com certeza,

Que a sua especialidade

Era o ténis de mesa.


Merecia um galardão

Pelo esforço inglório

De ter feiro a comissão

A chamar pelo Gregório.

Era duro de roer

O Raio do Açoriano:

Se lhe dava para beber

Ia tudo p’ro catano.


Com ele nada de vinho,

Tão pouco umas cervejinhas:

Se continuou poupadinho

Deve estar rico o “rodinhas”.


Para esquecer privações,

Mortinhos por dar à sola,

Nós diziamos palavrões

Ele acompanhava à viola.


Fez a guerra do Ultramar

E outra pior que ela,

Quando teve de lutar

Pelo concelho de Vizela.


Era a luta que ele tinha

E travava com desvelo:

Armado da escovinha

Não dava trégua ao cabelo.


O Eusébio botava giz

Mas às vezes tinha galo:

Descuidava-se, o infeliz,

Caía abaixo do cavalo.


Podia dar-lhe para pior,

Pôr-se agora a fazer rima…

Não estará o rimador

Apanhado do clima?!

DE BORDO DO VERA CRUZ – OS PRIMEIROS AEROGRAMAS

Vera Cruz, 15-5-71 – 1º dia

Queridos pais:

Desejo que estejam de perfeita saúde, que eu neste primeiro dia de viagem não podia estar melhor.

Resolvi escrever um aerograma por dia para vos contar como decorre esta minha viagem. É natural que só os possa enviar de Luanda e para o caso de os receberem todos juntos, eles vão devidamente numerados segundo a ordem por que foram escritos.

Saímos de Santa Margarida hoje, sábado, às duas da manhã num comboio que nos trouxe directamente ao cais da Rocha de Conde de Óbidos, onde embarcámos. Chegámos às sete da manhã, às dez e meia tivemos o habitual desfile e em seguida entrámos logo para o barco. Houve aquelas habituais cenas de despedidas e mais uma vez comprovei que quem sofre mais nestes casos são as pessoas que ficam.

Agora, já com 12 horas de viagem, posso dizer-vos o seguinte: as instalações são boas e há camarotes para cinco. Às refeições há dois pratos e sobremesa, o horário é pequeno-almoço às oito, almoço ao meio-dia, lanche às quatro e jantar às sete. Não tenho até agora qualquer problema de enjoo e, segundo os que já fizeram esta viagem muitas vezes, é esta a pior parte da viagem para isso.

Vim encontrar aqui muita malta conhecida, que vai noutros batalhões também para Angola.

E parece que é tudo que há para contar deste primeiro dia. Portanto e em resumo, tudo a correr ainda melhor do que contava.

Até amanhã, ou seja, continua no próximo episódio.

Vera Cruz, 16-5-71 (domingo) – 2º dia

Neste segundo dia de viagem continuo óptimo.

Grande parte dos meus camaradas está com problemas de enjoo, mas eu tenho resistido a tudo isso. Tenho comido e bebido bem e até já se foi o bacalhau e um salpicão, que por acaso era muito bom.

Já passámos a Madeira, mas ao largo. Passei quase todo o tempo na nossa sala de estar que é muito jeitosa, por sinal. Hoje até estive a jogar umas partidas de pingue-pongue.

Agora à noite tivemos variedades com um conjunto que tocou umas coisas jeitosas e ainda actuou um colega nosso que é imitador e deu show.

Tudo isto tem servido para ajudar a passar o tempo. Quanto ao tacho, tem-se comido bem e a ementa traz cada nome que até se torna giro. Por exemplo, vou passar a do jantar de hoje:

SOPA – Puré Faubonne; PEIXE – Peixe à Bretone; ENTRADA – Escalopes de vaca à Delfina; LEGUME – Couve verde salteada; BATATAS – Puré e cozidas; MOLHOS – Remolar e verde; SOBREMESA – Doce bávaro de baunilha, fruta verde e seca; CHÁ, CAFÉ ou LEITE. Como vêem, nada mau.

Segundo dizem, o mar a partir de agora estará cada vez mais sereno.

Neste momento estou a ouvir o relato de hóquei do Portugal-Inglaterra e nesta altura está 2-0 a nosso favor. Naturalmente que desta vez seremos campeões.

E de hoje não há mais nada para dizer. Até amanhã.

Vera Cruz, 17-5-71 (segunda-feira) – 3º dia

O terceiro dia a bordo foi passado da melhor maneira e muitas vezes até me esqueci que estava a andar de barco.

O pequeno almoço, além do habitual café com leite, constou ainda de um pratinho com carne guisada que até soube muito bem. Ontem, também ao pequeno almoço, tinha sido arroz de peixe. Portanto, sempre a comer.

Também de manhã tomei chuveiro, nada aqui falta.

Ao almoço comi bem e o prato de carne era feijoada que estava mesmo boa.

Aqui, de contrabando, vende-se mil e uma coisas. Muitos camaradas meus já compraram máquinas fotográficas, relógios, canetas, etc. A minha única compra até agora foi uma faca de mato que custou 120$00. Além de um álbum para fotografias, não tenho intenção de comprar mais nada.

À noite houve cinema, exibindo-se um filme de espionagem da série 007.

O mar está muito calmo, parece mesmo um rio. O calor começa a aparecer visto já estarmos na costa de África.

E acerca de hoje é tudo. Mais um dia passou e bem.

Até amanhã

Vera Cruz, 18-5-71 (terça-feira) – 4º dia

Continuo a fazer uma belíssima viagem. Cada vez melhor e cada vez me lembro menos que estou a viajar de barco.

Hoje, ao pequeno-almoço, comi iscas de fígado com batatas além, claro, do café com leite e pães com manteiga. Ao almoço, o prato de carne foi bife. Quanto ao lanche, às quatro horas, constou de chá e bolos.

Como verificam pelo que lhes tenho dito, a minha vida aqui tem sido quase só comer e descansar.

De manhã tivemos um treino de salvamento e usámos todos coletes salva-vidas. Tocou o alarme e toca tudo a correr para a sua baleeira.

Tivemos que atrasar o relógio duas horas, portanto enquanto aqui são dez horas neste momento, aí na Metrópole é meia-noite. Quando chegarmos a Luanda, voltamos a regular a hora pela Metrópole.

Num aerograma anterior disse que estávamos cinco no camarote, mas enganei-me pois são só quatro.

Tem-se avistado peixes-voadores e hoje, mesmo à beira do barco, passou um tubarão,

que é um bicharoco que mete respeito.

Já passámos ao largo de Cabo Verde, amanhã passaremos a Guiné.

Neste momento estamos quase a meio da viagem e hoje já esteve mais calor que nos dias anteriores.

Também temos piscina, que ainda não utilizei. O conjunto tem-se exibido mais vezes e com agrado.

E por hoje é tudo. Até amanhã.

Vera Cruz, 19-5-71 (quarta-feira) – 5º dia

Este dia decorreu igual aos outros, bem disposto e sem fazer nada.

Estive de serviço (sargento de dia à Companhia), mas não tive trabalho nenhum. Limitei-me a apresentar ao oficial de dia e a assistir às refeições dos soldados. Estes, pelo que vi, também comem bem e com muita limpeza. A louça é de porcelana e têm vinho e fruta a todas as refeições. Só nas instalações é que tiveram pouca sorte, porque calhou à minha Companhia ir para o porão e aquilo lá é insuportável devido ao calor e ao mau cheiro.

Durante o dia avistaram-se grandes cardumes de peixes-voadores, que proporcionaram um espectáculo divertido.

O mar tem-se mantido muito sereno e agora já quase ninguém tem problemas de enjoo.

Continuo a comer muito e bem. A sobremesa tem constado de doce e fruta verde.

Cada vez faz mais calor e o ar tem estado muito abafado.

Hoje já passámos a Guiné e o mesmo é dizer que estamos a meio da viagem.

E o relato do dia de hoje está feito. Ainda houve cinema, mas como estava muito calor, preferi estar antes a apanhar ar fresco.

Vera Cruz, 20-5-71 (quinta-feira) – 6º dia

Hoje, logo pela manhã, tomei um bom duche que me deixou bem disposto.

Tivemos, como de costume, a formatura às 8:30.

Consegui que um camarada me cedesse uma camisa fresca de manga curta, que estava a precisar, porque calor agora é mato. Quando chegar a Luanda vou comprar mais e ainda peúgas pretas, que são as que posso trazer com sapatos. Como trouxe de casa alguns pares escuros, a coisa tem remediado. A propósito, as de algodão que compraram saíram barrete, porque o par preto que calcei, no mesmo dia já estava roto.

Pela primeira vez nos últimos dias, passou por nós um navio de outra nacionalidade, que embora distante foi por nós admirado.

O mar, de tão calmo, até nos leva a desejar que houvesse uma amostra de tempestade, só para ver o efeito.

Tenho jogado umas partidas de ténis de mesa, que tem servido para passar o tempo. Já foram três bolas ao mar, mas há sempre mais uma bola desconhecida que espera por nós.

Tirei já várias fotografias que, se ficarem boas, envio quando chegar a Luanda. Não acredito muito, porque embora haja muitos fotógrafos, foram todos feitos à pressa.

A bica, depois das refeições, é de borla. A cerveja custa 4$50 e as garrafas, depois de vazias, mandam-se pela borda fora.

Para passar o tempo, tenho lido uns livritos que me emprestaram e que são jeitosos.

Aqui a nossa sala de estar é muito ampla e cheia de maples e poltronas. Esta viagem, noutras circunstâncias, seria maravilhosa.

E vai chegando, por agora.

Até amanhã, para contar mais umas labercas.

Vera Cruz, 21-5-71 (sexta-feira) – 7º dia

A viagem continua a decorrer da melhor maneira.

Pela primeira vez choveu e, embora durante pouco tempo, caiu água a potes.

Hoje atravessamos o Equador e parece que estão programadas umas praxes para aqueles que o vão passar pela primeira vez. Eu, como sempre, vou ver se me desenfio dessas coisas.

Aproxima-se o fim deste cruzeiro, segundo dizem chegamos ao largo de Luanda ainda

no domingo, mas só atracamos na segunda-feira às 8 horas da manhã.

Contra o habitual, hoje às 14:30 não houve formatura.

Uma coisa que me esqueci de dizer, é para o Pai ver a correspondência que vai aí para casa. Se entender que é coisa que me interessa, agradeço ma enviem para cá, a outra (folhetos de livros, por exemplo), arrumem-na aí para um canto. Para me escreverem, utilizem o endereço que indico no remetente.

Consta que antes de partirmos para o Leste, ficamos ainda algum tempo em Luanda, no Grafanil.

Vou aproveitar, nessa altura, para conhecer a cidade.

São quase quatro da tarde, portanto está na hora do lanche e este não se pode perder.

Até amanhã.

Vera Cruz, 22-5-71 (sábado) – 8º dia

Vamos ao largo de S. Tomé e Príncipe. Está uma temperatura agradável. O Equador já ficou para trás e com ele aquele calor tórrido, que se tornava doentio. A temperatura ontem foi de tal modo, que até pouco consegui dormir de noite.

Continuo com óptima disposição.

Segundo o previsto, na segunda-feira de manhã desembarcamos e vamos de comboio para o Grafanil. Desconheço ainda os dias que ficarei lá.

Como aqui os dias são muito iguais, já me vão faltando motivos para focar neste diário de bordo. No entanto, ele já termina amanhã.

Aproxima-se a hora do lanche, que não se pode perder. Toca, portanto, a deitar abaixo mais uns bolinhos com chá. Ao almoço, foi pastéis de bacalhau com arroz de tomate e cozido à portuguesa. A sobremesa foi banana.

Amanhã vai haver treino para o desembarque, porque 1.880 militares não podem sair ao mesmo tempo.

E por hoje é tudo. Até amanhã.

Vera Cruz, 23-5-71 (domingo) – 9º dia

Chegou finalmente o último dia de viagem.

Hoje já navegamos ao largo da costa de Angola. Cabinda já ficou para trás. Conforme já disse, desembarcamos amanhã de manhã.

A temperatura agora está amena e, embora esteja calor, corre uma aragem fresca.

De manhã tomei duche e barbeei-me, ficando assim pronto para a saída. Vou também preparar as malas para amanhã.

No Grafanil, segunda-feira de tarde, haverá revista pelo General-Comandante de Angola. Ainda se desconhece os dias que ficaremos lá.

De tarde vou ouvir os relatos de futebol e aqui pelos telegramas noticiosos sei que o meu Porto joga com o Ferroviário de Lourenço Marques.

Ontem à noite assisti a mais um programa de variedades, agora feito por malta militar.

Não sei se já vos disse que para me escreverem devem utilizar o endereço que vai no remetente.

Com o terminar da viagem, acaba também este diário. Depois, de Luanda, volto novamente a mandar notícias.

Até lá recebam abraços para vós e saudações para as pessoas amigas.

Manuel

MANUEL ANTÓNIO SANTOS