UNIDOS SOMOS INVENCIVEIS


Página dedicada aos ex - militares do Batalhão de Caçadores 3840, que tiveram por divisa “UNIDOS SOMOS INVENCÍVEIS”.

Passaram-se 35 anos e continuam a recordar o que de bom se passou.

Nestas linhas queremos homenagear aqueles que decorridos tantos anos, com as dificuldades da vida se encontram para recordar amigos e companheiros. Também para aqueles “que da lei da morte se foram libertando” e “no assento etéreo vão subindo” nós vamos lembrando “seus feitos valorosos”


31º Encontro

31º Encontro
31º Encontro do B.Caç. 3840

DIÁRIO DE UM COMBATENTE

DIÁRIO DE UM COMBATENTE

Se me perguntarem por que razãoescrevi este diário, hoje não sei responder.
Tenho pensado muito no assunto e, a esta distância, só vejo uma explicação: talvez, no meu íntimo, eu percebesse que estava a viver momentos de tal maneira marcantes na minha vida que teria que os registar para sempre.
De qualquer forma, o caderno onde escrevi este diário ficou muitos anos esquecido.
Esteve guardado no baú das coisas de pouca serventia, mas também no baú da memória.
Só quando, passado muito tempo, as minhas noites deixaram de ser atormentadas com as imagens da guerra, que me visitavam em forma de pesadelo, é que ganhei coragem para o reler. Tive, então, uma enorme surpresa: uma grande parte dos episódios que anotara no diário tinha-se desvanecido na memória. Foi nessa altura que pensei naqueles que comigo viveram aquelas situações e achei que seria interessante publicar um dia aquelas memórias, para que não se perdessem para sempre.
Projecto sucessivamente adiado, entendo ser agora boa altura para o fazer. Desejo dedicar este modesto contributo à preservação da memória a todos os elementos do B.Caç.3840 e, por elementar justiça, de uma forma muito especial
àqueles que estiveram a meu lado em todas as situações relatadas: os bravos elementos do 1º Grupo de Combate
da C.Caç.3347.
Manuel António Santos

Dia 31-05-1971, segunda-feira, 3º dia em Mucondo
Tive o meu baptismo de fogo. Fui numa coluna à fazenda S. Paulo e, a um quilómetro de lá chegarmos, fomos atacados com fogo de pistola-metralhadora, enquanto a fazenda era simultaneamente flagelada. Ripostámos e durante 45 minutos houve fogo dos dois lados. Atravessámos a pé e a correr a ponte que existe antes de chegar à fazenda e até lá não mais se ouviu fogo. No reconhecimento que depois de fez, nada se apurou. De tarde fui noutra coluna à roça Caiado e depois ao Dange esperar duas camionetas civis. Nada de especial se
passou, somente cheguei arrasado.

Dia 02-06-1971, Quarta-feira, 5º dia de guerr
Fui numa coluna composta por cinco unimogues fazer reconhecimento à áreade Quimbage, ponto de concentração
dos quartéis do M.P.L.A. Tínhamos percorrido algumas centenas de metros numa picada antiga e já quase coberta
de capim, quando ouvi um estrondo enorme acompanhado por uma nuvem de pó negro. Saltámos das viaturas e, ao mesmo tempo que montávamos segurança à retaguarda porque éramos os últimos, ficámos todos numa enorme ânsia de saber as proporções do ocorrido. Um cabo a meu lado, dos velhinhos, começou a futurar o pior. Mas a boa notícia chegou: não havia vítimas. Tinha sido uma armadilha montada pelos gajos que foi accionada pelo rodado traseiro dum unimogue da frente. A viatura foi projectada alguns metros para a frente e os seus ocupantes foram impulsionados para o ar. Apesar de no local ter ficado um “buraquinho” com três metros de diâmetro e dois de fundo, ninguém se feriu.
Regressámos em seguida ao quartel e chegámos por volta das 17 horas.

Dia 04-06-1971 – 1ª Operação;
Zona: fazenda Caiado; duração: 2 dias
Dia 16-06-1971 – Novo ataque a S. Paulo
Foram solicitados os nossos serviços e para lá partiu o 4º Grupo de Combate que suportou durante hora e meia fogo
inimigo. De novo os turras montaram uma emboscada para quem socorresse a fazenda.
Terminada a “festa”, verificou-se que da nossa parte não tinha havido problemas e presume-se que eles tiveram pelo menos alguns feridos.

Dia 17-06-1971 – 2ª Operação;
Zona:Dange; duração 2 dias
Dia 18-06-1971
Percorremos vários quilómetros até chegar ao Dange, onde íamos aguardar o transporte para o Mucondo. Tínhamos
passado a noite na mata e embora o percurso fosse difícil, acabei por me rir várias vezes, porque os tombos sucediam-se
e ver um fulano rebolar, com toda a tralha toda atrás de si, tem a sua piada.
Saímos às três da tarde do Dange e surgiu então o primeiro contratempo: uma Mercedes avariou e teve que ser rebocada pela Berliet da frente, onde eu ia com a minha Secção. Mais adiante avariou um unimogue, que passou a ser rebocado por um outro. Parámos amiudadas vezes e a coluna passou a andar morosamente.
Ao passar por um morro que se levantava à nossa direita, verifiquei que o gajo da metralhadora apontava para o lado contrário e gritei-lhe “para ele virar aquela merda para o morro”.
Tinham passado por esse mesmo local já três viaturas (a minha Berliet e a Mercedes que rebocava, mais um outro
unimogue) , quando a quarta viatura – unimogue – accionou uma mina. Houve grande estrondo e como ia bastante à frente, deixei parte do meu pessoal a montar segurança e com a restante malta corri para o local do acidente. Aí, os ocupantes do unimogue atingido espalhavam- se pelo chão e queixavam-se com dores. A viatura, ao lado do buraco
deixado pela mina, tinha a parte da frente em mísero estado.
Seguiram-se momentos de inquietação e começaram a prestar-se os primeiros socorros. Faltavam armas e equipamentos também. Enquanto se montava segurança em todas as direcções (o Tavares foi para o morro com a sua Secção), comunicava-se pelo rádio o ocorrido para o quartel. Mais tarde chegou o Capitão com mais um grupo de combate e tratou-se de rebocar o unimogue sinistrado. Ao mesmo tempo, o médico verificava não haver feridos graves, e o pior ainda era o Jesus enfermeiro, que tinha um profundo buraco na “pinha”.
Finalmente seguimos em marcha muito lenta para o quartel, onde chegámos às 23 horas. Tínhamos demorado oito horas a fazer 26 km. Chegou-se à conclusão que os gajos tinham no local uma emboscada montada, mas tiveram medo de entrar em acção.
Ah, é verdade, nesse dia fazia anos. Era meia-noite quando comecei a jantar e então, com o Capitão, oficiais, sargentos e furriéis, houve uma pequena festa.
O Martins tinha preparado tudo e até flores havia a decorar a mesa. Ofertaramme uma garrafa de aguardente “Fim de Século, e quando às duas horas me deitei, estava arrasado física e moralmente. Assim se passou mais um dia de guerra.

Dia 28-06-1971 – 3ª Operação;
Zona: Roça Luís Filipe; duração 3 dias
Esta operação teve por objectivo reabrir a picada onde os elementos do Batalhão “Sus... a eles” construíram uma pista. Fomos três Grupos de Combate e o Capitão também tomou parte na operação. Os sapadores construíram uma ponte e ainda improvisaram mais duas para as viaturas passarem os rios que íamos encontrando. Não chegámos ao términus devido às dificuldades com que nos fomos deparando. Por exemplo, perdemos um dia a serrar uma enorme árvore que estava atravessada na picada e acabámos por deixá-la no mesmo sítio.
Uma carga de trotil que se empregou, apenas lhe tirou um bocado de casca...
O meu Grupo, a pé, ainda foi quase até ao objectivo, mas voltou ao encontro das viaturas e do resto da malta.
A zona é bastante perigosa, e segundo informações de um gajo que se entregou, há lá um quartel turra – Mucondo -, que tem 70 mamíferos com armas.
Além desse, há também nas imediações o Mufuque, que já foi bombardeado por nós, mas os gajos ainda lá estão. Encontrámos ainda muitas lavras e pegadas recentes. Um telegrafista dos Cavaleiros,nesta zona , ficou sem um pé.
Dormi duas noites na mata e ao terceiro dia voltámos a pé até ao local onde fomos recolhidos.

Dia 04-07-1971 – 4ª Operação;
Zona: S. Paulo; duração 3 dias
Fomos largados na fazenda Daladiatapara, a partir daí, batermos a zona até S. Paulo. A operação decorreu normalmente e por várias vezes passámos nos locais onde eles montaram as emboscadas anteriores. Na picada, vimos pegadas muito recentes dos gajos e, numa casa abandonada no cimo de um morro, avistámos cascas de laranja também recentes, o que prova que tinham estado lá há bem pouco tempo.
Na casa em ruína, liam-se algumas inscrições: dos nossos -”Os da UPA são todos uns filhos da puta”; deles - “Nós sabemos que somos mais fracos, mas o pouco com Deus é muito e o muito sem Deus é nada” e ainda “Portugueses, por que não deixais o povo angolano em paz?”, etc.
Ao patrulharmos a tonga, estivemos na eminência de apanhar umas rajadas, porque os Voluntários que estavam a fazer segurança aos bailundos que colhiam café, viram mexer e já estavam atrás de uma camioneta com a arma em posição.
No último dia, quando aguardávamos as viaturas para o regresso, almoçámos em S. Paulo a convite dos gerentes da
fazenda. No almoço, além de mim, estiveram o Tavares, o alferes Gonçalves, o Reis, o Leal e o alferes Baptista. Falou-se sobre cobras e fiquei a saber que a cobra do café – verde e fininha - , dependura- se nas folhas e quando pica a cabeça de um parceiro não há remédio que lhe valha. A surucucu – pequena, grossa e às pintas pretas - não faz mal nenhum, salvo se for pisada. Neste caso, pica imediatamente e só há salvação se se fizerem logo dois profundos golpes à volta da parte atingida. É muito sorna e só se desloca dois a três metros por dia. Falou- se ainda na formiga maconde, que quando resolveu ir à fazenda matou galinhas, patos e pombas.
O meu Grupo e o 2º voltaram a Mucondo sem mais problemas.

Dia 12-07-1971 – 5ª Operação;
Zona: Sande; duração 3 dias
Saíram, o meu Grupo, o 4º e o pelotão da 46 e fomos largados na fazenda Sande. Patrulhámos toda a zona e no terceiro dia fomos recolhidos pelo 2º Grupo na picada para o Dange.
Nada de especial a assinalar, a não ser que nos fartámos de andar e chegámos mesmo a ficar perdidos na mata. O
Capitão alinhou nesta operação.

Dia 16-07-1971
O meu Grupo foi ao Dange para trazer duas camionetas civis. Vinte metros depois de passar a ponte que existe antes do Dange e a poucos metros de uma grande ribanceira, um unimogue, inexplicavelmente, enfiou pelo capim dentro.
Parte do pessoal saltou, os outros caíram no capim. Os ferimentos foram ligeiros, mas o azar foi que no local havia “feijão maluco”, que é uma vagem que quando seca larga uns pêlos finíssimos que provocam uma comichão insuportável.
Todo o pessoal ficou à rasca, tiveram que se despir até, e quando chegaram ao quartel alguns levaram injecções.
Por brincadeira, puseram um pouco de “feijão maluco” na cama do Reis e como resultado ele rabiou a noite inteira.
Resumindo, nem só a guerra nos causa arrelias...

Dia 04-08-1971 – 6ª Operação;
Zona: Dange; duração 4 dias
Nesta operação tomaram parte o meu Grupo, o Segundo e alguns homens do Quarto. Como o alferes Gonçalves teve
que ir para Luanda, eu é que comandei o meu Grupo.
No primeiro dia nada de especial se passou. No segundo, andámos bastante e a certa altura começámos a notar indícios da presença do in. Na confluência de dois rios, numa porção de terra que se assemelhava a uma ilhota, fomos encontrar um acampamento onde os gajos tinham estado algumas horas antes. Havia ainda inúmeras fogueiras acesas (onde aquecemos as nossas rações de combate) e restos de ração de combate nº 30 (!), cascas de bananas, mandioca, milho, feijão, etc. Pelas fogueiras e também pelas camas, verificámos que eram mais de cem turras.
Escusado será dizer que poucos dormiram nessa noite. Nas árvores havia inscrições deles, com nomes e outras indicações. Eu acabei por dormir na cama onde horas antes tinha dormido um turra.
De noite, nada de espacial se passou e partimos às sete da manhã para continuar a operação.
Logo nos apercebemos da existência de um trilho muito batido e usado ainda recentemente. Abandonámos o trajecto que seguíamos e tomámos o trilho, na certeza que mais tarde ou mais cedo ia haver merda. O trilho principal tinha muitas
ramificaçõs ( para despistar) e durante muito tempo seguimo-lo sem resultado.
Entrámos numa linha de água e a certa altura eu, que ia atrás com o meu Grupo, ouvi fogo nosso. Seguiu-se depois fogo de Mauser e rajadas de pistola metralhadora. Só soube do que se passava, quando cheguei à frente e vi uma Mauser capturada e me disseram que, pelo menos, tinham lerpado um. Segui então à frente com a minha Secção, enquanto o alferes Baptista fazia um pequeno reconhecimento no local.
Continuámos a progressão, sempre à espera de mais “festa” que, no entanto, não chegou a surgir. Verificámos que se tratava de um grupo de cinco gajos que quando nos viram fugiram, disparando de vez em quando para trás. Só que
aquele que lerpou, não foi suficientemente rápido e o André – Cabo preto – não esteve com meias medidas.
Depois de tudo isto, iniciámos uma penosa jornada de regresso até ao local onde seríamos recolhidos. Todos eatavam rebentados e chegou-se a pedir para se terminar a operação um dia antes, o que não foi autorizado.
Quando eu e os homens da minha Secção, que seguíamos à frente, chegámos à picada – cansados, sujos e molhados
- foi como se atingíssemos o Paraíso.
Fomos finalmente recolhidos e a nossa chegada ao Mucondo foi quase triunfal, pois contribuímos para o primeiro êxito militar, não só da Companhia como do Batalhão.
Manuel António Santos
- CONTINUA –

Imaginem um dos nossos que, depois de regressar de Angola, perdeu completamente o contacto com todos os camaradas de armas.
Alguém que a partir de certa altura, como aconteceu com quase todos nós, sentiu uma irresistível necessidade de matar saudades, trocar desabafos e apaziguar angústias com aqueles que tinham vivido as mesmas situações traumáticas da guerra, e que por esse facto seriam os únicos que o poderiam compreender e ajudar.
O mesmo que tentou, até por aconselhamento médico, restabelecer esses laços afectivos, mas que viu todas as tentativas que fez revelarem-se infrutíferas.
Que esperou ansiosamente, durante anos, pelo dia 10 de Junho, para se deslocar às cerimónias do dia do Combatente, na esperança vã de encontrar algum camarada conhecido.
Pois esse nosso antigo companheiro nunca desistiu dos seus intentos e finalmente, ao fim de trinta e tal anos, conseguiu graças à internet descobrir maneira de contactar com gente do Batalhão.
Estabelecido o precioso contacto, começou por receber o nosso Boletim, e foi emocionado que leu o Diário onde recordou uma das principais operações em que tinha tomado parte (mais tarde confessou que enquanto lia as lágrimas não lhe pararam de correr). Entusiasmado, quis logo fazer a marcação para o Encontro que se avizinhava. Deram-lhe o contacto do furriel do seu grupo, que vivia na sua zona, e combinaram a boleia (na véspera do Encontro, disse mais tarde, portou-se como um puto e não conseguiu dormir). E no local combinado, quando se encontraram, o abraço que deram foi tão efusivo, que quem os visse ficaria a conjecturar a razão de tal entusiasmo.
Quando chegou, não conseguiu disfarçar a sua emoção. Abraçou os antigos camaradas, mostrou fotografias, falou com toda a gente, querendo sofregamente compensar os anos perdidos.
No fim do Encontro, quando lhe perguntei se tinha correspondido às suas expectativas, não precisava de ter respondido. O Azeredo exultava de felicidade.

Dia 11-10 -1971 – 10ª Operação; Zona: Catoca; duração 3 dias
Nesta operação fui a comandar o meu Grupo e fomos largados, mais o 2º e 3º Grupos, na Cova das Pacaças.
Apanhámos logo um trilho que nos levou, ainda nesse dia, a uma lavra (já conhecida) do Catoca.
Dormimos em plena lavra e nada de especial aconteceu.
Depois de várias voltas, tomámos o trilho de regresso, que já utilizáramos na operação anterior, e viemos sair perto da ponte do Luíca, onde fomos recolhidos pelo 4º Grupo.

Dia 29-10-1971 – 11ª Operação; Zona: MPLA; duração 2 dias

Fomos largados, com o 4º Grupo, no Sande.
Seguimos um trilho que vai dar a vários quartéis do MPLA (Haiti, Bolívia, Tanzânia, etc.).
Ao fim da tarde, topámos uma cubata de uma sentinela, com indícios de presença recente – fogueira acesa, dendê, latas, uma garrafa… - pelo que resolvemos logo montar lá uma emboscada, na esperança que o gajo (ou gajos) voltasse.
Fiquei emboscado três horas, com mais cinco homens, mas sem qualquer resultado.

Estava já escuro, quando o resto do Grupo nos veio recolher, para seguirmos para o local onde passaríamos a noite, que supostamente o 4º Grupo já devia ter escolhido.
Foi com enorme dificuldade que chegámos até eles, e então demos conta que não tinham arranjado sítio para ficarmos.
O tempo entretanto começou a ficar feio, e a chuva estava iminente. Desenrascámo-nos o melhor possível e eu, por exemplo, fiquei num local totalmente inclinado, onde não podia esticar as pernas, se não batia com elas na cabeça do Eusébio.
Seguiu-se o esperado vendaval, com chuva a cântaros, trovoada e relâmpagos, mesmo em cima de nós. Quer pela incómoda posição, quer por causa da chuva que entrava por todos os lados, quase não dormi e foi mesmo, até à altura, a pior noite que passei na mata.
O meu jantar foi um bocado de casqueiro e água. A noite nunca me pareceu tão longa mas, finalmente, chegou a manhã e às oito horas iniciámos a marcha de regresso.
Embora completamente arrasados – nunca senti tanto calor – finalmente chegámos ao Sande, onde bebi umas cervejas e uns whiskies, enquanto não chegava a coluna com o 3º Grupo, que nos recolheu.
Segundo depois me informaram, também tinha havido temporal no Mucondo, que até arrancou uma árvore, chapas dos telhados, uma pesada tampa do depósito da água, etc.

12-11-1971 – 12ª Operação; Zona: MPLA; duração 3 dias

Iniciámos a operação na picada do Quijoão. Para esta operação foram dois grupos de combate – o Primeiro e o Quarto. Para fugirmos da vista de uma sentinela, que o guia disse haver próximo, logo entrámos na mata. Ainda de manhã, topámos algumas cubatas de sentinelas, pegadas do próprio dia, e várias covas de lobo, quase todas com paus bastante afiados no fundo.
Ao início da tarde, encontrámos um trilho batidíssimo e, pouco depois de entrarmos nele, ouvimos um tiro, de certo de uma sentinela que nos avistou. Prosseguimos no trilho e fomos dar ao quartel turra de nome Bolívia, que a Companhia anterior à nossa tinha destruído. Montámos o dispositivo para passar a noite nesse mesmo local, no meio das cubatas arruinadas.

Dia 13-11-1971 (sábado)

Eu e o alferes Silva tínhamos construído, com os ponchos, uma pequena barraca onde, pelas cinco e meia da manhã, despertei ao som de rajadas. O Duarte, do meu grupo, estava de sentinela e ao olhar em frente, a uns quinze metros, viu um turra latagão já com a Mauser apontada. Precipitadamente, pôs a arma em rajada e atirou-lhe, o mesmo fazendo mais uma série de malta. O gajo, no entanto, pôs-se nas putas, devendo ter apanhado o maior cagaço da vida dele.
Arrumámos logo as coisas e seguimos no trilho, prontos para o que desse e viesse. Andados uns quinhentos metros, mais um tiro de uma sentinela se ouviu, este já próximo das lavras, a que chegáramos entretanto. Mais à frente, outro balázio, este já por cima da malta. Logo adiante, encontrámos o acampamento onde, além de tábuas escritas com indicações importantes, galinhas, colheres, uma cadeira rotativa metálica e um cão, mais nada encontrámos.
Deitámos fogo àquela merda toda e depois voltámos atrás, pensando no regresso.
Apanhámos a picada abandonada do Quimbage, onde, a certa altura, vimos o buraco da primeira mina que nos rebentou.
Chegámos finalmente ao local onde tínhamos sido largados, onde comunicámos para o quartel a perguntar a possibilidade de sermos recolhidos nesse dia. Responderam afirmativamente, mas o ponto de recolha só era possível para lá do Quicunzo.
Fizemos mais uma maratona até lá, debaixo de um calor escaldante. Era já noite, quando o 3º Grupo nos recolheu.
Nesta operação quem foi no meu pelotão foi o alferes Aparício, e no 4ª o alferes Silva. O Tavares estava de férias.

Manuel António Santos

- CONTINUA –

Chega ao fim a transcrição deste Diário que veio sendo publicado nos últimos números do nosso Boletim. É certo que na segunda parte da comissão, já nas Mabubas, também se chamavam operações a umas voltitas que dávamos ao redor da barragem, mas desses passeios só me lembro das noites abafadas e dos milhões de mosquitos que, se não tivéssemos redes mosquiteiras, nos sugariam até ao tutano. O barulho que faziam, no silêncio da noite, fazia lembrar um ataque da aviação.
Modéstia à parte, a narrativa que recuperei do caderno que esteve tantos anos propositadamente esquecido, teve dois fins meritórios. Em primeiro lugar, fez lembrar àqueles que viveram as situações descritas os pormenores que o tempo já inevitavelmente tinha transformado numa nebulosa e que, inexoravelmente, acabariam um dia por se perderem para sempre. Por outro lado, talvez o facto mais importante tenha sido dar a conhecer a quem teve a felicidade de não imaginar sequer a realidade de uma guerra – a mais estúpida das coisas estúpidas – as situações a que estiveram sujeitos milhares de jovens que foram obrigados a entrar numa guerra que não queriam e que nada lhes dizia.
E esses jovens foram uns heróis. Não porque tivessem ganho qualquer guerra, mas porque apesar da verdura dos seus vinte anos, quase todos conseguiram vencer as vicissitudes para que foram empurrados.
Suportaram o frio e o cacimbo das noites dos Dembos, o calor sufocante e o cansaço durante caminhadas de dias inteiros, dormiram nos sítios mais incríveis, umas vezes no meio da bosta de elefantes e de outros animais, outras sob temporais medonhos com chuva diluviana e trovões e relâmpagos próprios do clima de África.
Sofreram com a fome e da sede ficaram a saber que é a necessidade primária que o indivíduo mais dificuldade tem em suportar. Com os cantis vazios e sem se saber quando vai ser possível voltar a encontrar água, o cérebro entra em parafuso e beber passa a ser uma obsessão.
E passaram por situações limite quando sentiram aquele que deve ser o pior dos medos: a sensação horrível de sentir o silvo rasante de uma bala.
E outros medos com minas a rebentar e emboscadas na picada ou dentro da mata. E experimentaram algo que, se possível, ainda é pior que o medo: a tensão, quando se espera um ataque que se sabe que vai acontecer, podendo até ser no segundo seguinte.
Atravessaram rios caudalosos, penetraram na mata virgem e foram atacados por formigas e outra bicharada.
No entanto, com um espírito que não foi só de camaradagem e amizade, mas sim de verdadeira irmandade, tudo venceram.
E, como o último parágrafo deste Diário curiosamente descreve, ainda tiveram ânimo e disposição para brincar com as adversidades. Gente formidável
Manuel António Santos


Dia 18-02-1972 – 16ª Operação (Operação Facada) Zona:
Campo de Majores; duração 4 dias.
Actuaram desta vez o 1º, 2º e 4º Grupos, que foram
largados na Ponte Totobola.
A picada até lá é péssima e a zona não é nada convidativa. Está lá destacado um pelotão da Companhia do Piri e as suas instalações são construídas inteiramente em cimento armado.
Algumas horas antes da nossa largada, muito perto do local em que apeámos, tinha rebentado uma mina à Companhia do Sus…a eles, que
esteve no Mucondo, e tinha morrido um soldado que eles vieram trazer ao
destacamento para prosseguir a operação.
Seguimos um trilho que acompanhava o Dange, e no mesmo dia já tínhamos apanhado dois gajos e sido detectados.

Dia 19-02-1972

Embora estivesse previsto atacar o objectivo no dia seguinte, resolveu-se arrumar o assunto o mais depressa possível.
Atacámos primeiro o Hanói 1, onde embora fossemos recebidos com tiros entrámos a matar com rajadas de G3 e granadas defensivas.
Depois de destruir toda aquela porcaria, seguimos para o Hanói 2 que ficava a duas horas de caminho.
Cedo começou a festa, com os gajos dispostos a não nos querer deixar entrar.
Nestes dois quartéis, os cabrões têm 19 armas e é lá a sede do M.P.L.A., funcionando ainda como campo de instrução.
Respondemos com rajadas, granadas e morteiradas, e só com muito custo é que conseguimos expulsar os gajos. Foi um tiroteio do caralho, talvez até a situação em que houve mais barulho. Aliás, isso compreende-se, até porque desde 1969 ninguém tinha conseguido lá entrar.
Apanhámos uma Mauser e uma granada defensiva, e como o pessoal estava todo rebentado, pedimos a recolha para o dia seguinte, o que só veio a acontecer na manhã de 21, sendo um grande alívio quando apareceram os
hélis para nos levar.

Dia 28-02-1972 – 17ª Operação; Zona: S. Paulo; duração
3 dias

Constou de patrulhas e emboscadas na área.
Uma operação porreira, a lembrar os “belos tempos”.
Tomaram parte o 1º e 3º Grupos.

Dia 11-03-1972 – 18ª Operação; Zona: Caiado; duração 2 dias

Tratou-se de um reconhecimento onde, na ante-véspera, os Voluntários tinham tido uma emboscada onde lerpou um e quatro ficaram feridos.

Dia 15-03-1972

Íamos a S. Paulo largar o 2º e 4º Grupos, quando a dez minutos do quartel nos rebentou uma mina.
Houve feridos, mas ligeiros. Voltámos atrás para rebocar a viatura atingida. Seguimos meia hora depois, mas não houve mais problemas.
A viatura que acionou o engenho (de fraca potência) ia em 2º lugar, atrás da Berliet. Eu seguia na última, também uma Berliet.

Dia 10-05-1972 – 19ª Operação; Zona M.P.L.A.; duração 4 dias

Foram três Grupos com bailundos para cortar milho e mandioca nas lavras.
No regresso, o 4º Grupo, quando nos ia recolher, rebentou mais uma mina que provocou um ferido – o Fernandes – que foi para Santa Eulália e posteriormente para Luanda.

Dia 26-05-1972 – 20ª Operação; Zona Campo de Majores; duração 3 dias

Tomaram parte nesta operação o 1º, 3º e 4º Grupos.
Fomos lançados de héli às 11:40 e às 12:20 estávamos a entrar no acampamento.
Pelo caminho houve a festa habitual e numa das vezes o Gomes, do 3º Grupo, apanhou um tiro no bolso das calças do camuflado!
À entrada, os gajos fizeram bastante fogo, mas conseguimos pô-los nas putas.
No regresso, viemos ter à Ponte Totobola e dormimos uma noite – com muitos mosquitos – no fortim que está lá a guardar a ponte.

Dia 04-06-1972 – 21ª Operação; Zona Matete (UPA);duração 4 dias

Actuámos, juntamente com a Artilharia, no corte de lavras.
Cortaram-se milhares de pés de mandioca e jinguba.
Não fomos chateados durante os quatro dias, ao contrário da outra Companhia.
Tivemos que atravessar por duas vezes um rio com grande caudal, o que se tornou difícil, de tal maneira que alguns caíram com toda a tralha dentro de água, para gáudio do resto da malta.

FIM

Manuel António Santos

sábado, 15 de setembro de 2007

Boas vindas

Bem vindo ao Blog do Batalhão de Caçadores 3840, que cumpriu a sua comissão em Angola desde Maio de 1971 a Maio de 1973. Era composto pelas Companhias: Comando e Serviços (CCS), Caçadores 3346 (CCaç3346), Caçadores 3347 (CCaç3347) e Caçadores 3348 (CCaç3348). Estiveram colocadas, primeira parte da comissão: CCS e CCaç3346 em Zemba, CCaç3347 no Mucondo e a CCaç3348 em Cambamba. Na segunda parte: CCS e CCaç3348 na Fazenda Tentativa, CCaç3346 no Tábi e CCaç3347 na Barragem das Mabubas.

3 comentários:

Anónimo disse...

Podias mostrar fotografias das outras companhias.

Jose Luis PP disse...

Sim, Barragem das Mabubas, não confundir com as Matubas!!!

mario disse...

Caro ex- combatente o meu Bat. esteve por essas zonas, envio site da comp. caç. 3387 existe fotos para matar saudades, se as houver?.
http://www.prof2000.pt/users/secjeste/
CCac3387/

Mário Silva

30º Encontro

30º Encontro